Encontrei este texto instigante em uma publicação recente da própria autora, Andressa Tavares Bach, em seu perfil no Instagram (@andressatavaresbach). No vídeo, ela cria um diálogo fictício fascinante em uma mesa de bar reunindo Sócrates, Friedrich Nietzsche, Daniel Kahneman e Sigmund Freud para refletir sobre por que temos tanta dificuldade em aceitar estar errados e por que transformamos discussões em competições.
Inspirado por essa provocação, ao final da transcrição apresento uma contribuição pessoal: como seria a conversa se o apóstolo Paulo de Tarso também se juntasse à mesa, trazendo a perspectiva da transcendência e da busca pela verdade eterna.
Confira abaixo a transcrição do vídeo e, em seguida, a continuação dessa conversa.
Transcrição do vídeo de Andressa Tavares Bach
Ontem sentei numa mesa de bar e o bate-papo foi bem revelador. Resumindo: estava eu, Sócrates, Nietzsche, Daniel Kahneman e Freud.
Eu estava falando para eles que tenho percebido que a conversa entre as pessoas tem sido mais uma competição do que uma troca de ideias. E perguntei: "Por que a gente precisa tanto estar certo?"
Sócrates foi o primeiro a responder e, claro, iniciou com aquela velha história de que a sabedoria é quando a gente reconhece aquilo que não sabe:
— "O problema, Andressa, não é não saber. É não saber e achar que sabe".
Nietzsche então tomou um gole do seu vinho e disse que o problema era ainda mais profundo:
— "As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras".
Kahneman, como sempre, tentou explicar o que acontece na nossa mente:
— "A sua mente não pergunta se tem todas as informações. Ela pega aquilo que está disponível e constrói a melhor história possível. E quanto mais coerente a história, mais verdadeira ela parece. Mas coerência não é, necessariamente, a verdade".
E depois de construir uma boa história, o seu cérebro passa a procurar somente informações que confirmem o que você já pensa.
Foi aí que Freud entrou na conversa:
— "O ego não está comprometido com a verdade. Está comprometido em nos proteger daquilo que ameaça a imagem que nós construímos de nós mesmos. Vocês estão achando que as pessoas defendem ideias, mas, muitas vezes, elas estão defendendo a si mesmas".
Achei isso super interessante. Quando uma ideia vira uma identidade, questionar aquilo que eu penso vira um ataque a quem eu sou. Talvez seja por isso que algumas discussões fiquem tão emocionais.
E tem mais uma coisa bem interessante aqui: quanto mais inteligente uma pessoa é, mais argumentos ela pode encontrar para defender aquilo que já acredita. Pois é, inteligência não é garantia de pensamento crítico; às vezes ela só deixa a racionalização mais sofisticada.
Sócrates então tomou o último gole e disse:
— "Talvez a pessoa mais sábia da mesa não seja aquela que tem mais certezas. Talvez seja aquela que consegue se perguntar: 'E se eu estiver errado?'"
Uma contribuição à conversa: E se Paulo de Tarso se sentasse à mesa?
Nesse instante, Paulo de Tarso, que estava na mesa ao lado, levantou-se e se dirigiu ao grupo:
— Não pude deixar de ouvir a conversa. Talvez haja algo que ainda não tenha sido dito. O problema não está apenas em termos dificuldade para reconhecer que podemos estar errados. Existe em nós uma tendência ainda mais profunda: queremos que aquilo que pensamos tenha origem em nós mesmos.
Sócrates ergueu uma sobrancelha, interessado.
Paulo continuou:
— Vocês falaram sobre ignorância, convicções, vieses e defesa do ego. Tudo isso ajuda a compreender por que o ser humano se apega tanto às próprias certezas. Mas há uma pergunta anterior: se a verdade não foi criada por nós, por que haveríamos de tratá-la como propriedade nossa?
Freud apoiou o cotovelo sobre a mesa.
— Então você está dizendo que o orgulho não está apenas em querer estar certo, mas em querer ser a fonte daquilo que consideramos certo?
— Exatamente. — respondeu Paulo. — O ser humano recebe muito mais do que produz. E, ainda assim, facilmente transforma aquilo que recebeu em motivo para se exaltar. Até o conhecimento que possui não nasceu simplesmente dele.
Nietzsche sorriu de lado:
— E você acredita que exista uma verdade que esteja acima de todas essas interpretações humanas?
— Não apenas acredito. É justamente esse o ponto. A verdade não depende de nós para ser verdade. Ela nos precede. E, quando falo da verdade, não estou falando de uma divindade inventada para confirmar aquilo que cada pessoa já pensa. Falo do Deus que se revela e que não cabe nas nossas preferências, no nosso ego ou nas nossas convicções. O Deus que vocês podem procurar sem ainda conhecê-lo plenamente.
Kahneman interrompeu:
— Então até nossa busca pela verdade pode ser contaminada pelos mecanismos que discutimos?
— Pode. Por isso a humildade é indispensável. Quem pensa que já possui a verdade como propriedade sua corre o risco de transformar a própria certeza em ídolo. Mas quem reconhece que a verdade não nasceu nele pode permanecer disposto a ser corrigido por aquilo que é maior do que ele.
Sócrates sorriu.
— Então talvez a pergunta “E se eu estiver errado?” ainda não seja a mais profunda.
Paulo assentiu:
— Talvez seja esta: “E se a verdade não pertencer a mim?” Porque, se a verdade é maior do que nós, estar disposto a estar errado não é uma derrota. É uma forma de deixar de ser o centro.