domingo, 20 de setembro de 2026

Quando estar certo vira uma questão de identidade.



Encontrei este texto instigante em uma publicação recente da própria autora, Andressa Tavares Bach, em seu perfil no Instagram (@andressatavaresbach). No vídeo, ela cria um diálogo fictício fascinante em uma mesa de bar reunindo Sócrates, Friedrich Nietzsche, Daniel Kahneman e Sigmund Freud para refletir sobre por que temos tanta dificuldade em aceitar estar errados e por que transformamos discussões em competições.

Inspirado por essa provocação, ao final da transcrição apresento uma contribuição pessoal: como seria a conversa se o apóstolo Paulo de Tarso também se juntasse à mesa, trazendo a perspectiva da transcendência e da busca pela verdade eterna.

Confira abaixo a transcrição do vídeo e, em seguida, a continuação dessa conversa.

Transcrição do vídeo de Andressa Tavares Bach

Ontem sentei numa mesa de bar e o bate-papo foi bem revelador. Resumindo: estava eu, Sócrates, Nietzsche, Daniel Kahneman e Freud.

Eu estava falando para eles que tenho percebido que a conversa entre as pessoas tem sido mais uma competição do que uma troca de ideias. E perguntei: "Por que a gente precisa tanto estar certo?"

Sócrates foi o primeiro a responder e, claro, iniciou com aquela velha história de que a sabedoria é quando a gente reconhece aquilo que não sabe:

— "O problema, Andressa, não é não saber. É não saber e achar que sabe".

Nietzsche então tomou um gole do seu vinho e disse que o problema era ainda mais profundo:

— "As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras".

Kahneman, como sempre, tentou explicar o que acontece na nossa mente:

— "A sua mente não pergunta se tem todas as informações. Ela pega aquilo que está disponível e constrói a melhor história possível. E quanto mais coerente a história, mais verdadeira ela parece. Mas coerência não é, necessariamente, a verdade".

E depois de construir uma boa história, o seu cérebro passa a procurar somente informações que confirmem o que você já pensa.

Foi aí que Freud entrou na conversa:

— "O ego não está comprometido com a verdade. Está comprometido em nos proteger daquilo que ameaça a imagem que nós construímos de nós mesmos. Vocês estão achando que as pessoas defendem ideias, mas, muitas vezes, elas estão defendendo a si mesmas".

Achei isso super interessante. Quando uma ideia vira uma identidade, questionar aquilo que eu penso vira um ataque a quem eu sou. Talvez seja por isso que algumas discussões fiquem tão emocionais.

E tem mais uma coisa bem interessante aqui: quanto mais inteligente uma pessoa é, mais argumentos ela pode encontrar para defender aquilo que já acredita. Pois é, inteligência não é garantia de pensamento crítico; às vezes ela só deixa a racionalização mais sofisticada.

Sócrates então tomou o último gole e disse:

— "Talvez a pessoa mais sábia da mesa não seja aquela que tem mais certezas. Talvez seja aquela que consegue se perguntar: 'E se eu estiver errado?'"

Uma contribuição à conversa: E se Paulo de Tarso se sentasse à mesa?

Nesse instante, Paulo de Tarso, que estava na mesa ao lado, levantou-se e se dirigiu ao grupo:

— Não pude deixar de ouvir a conversa. Talvez haja algo que ainda não tenha sido dito. O problema não está apenas em termos dificuldade para reconhecer que podemos estar errados. Existe em nós uma tendência ainda mais profunda: queremos que aquilo que pensamos tenha origem em nós mesmos.

Sócrates ergueu uma sobrancelha, interessado.

Paulo continuou:

— Vocês falaram sobre ignorância, convicções, vieses e defesa do ego. Tudo isso ajuda a compreender por que o ser humano se apega tanto às próprias certezas. Mas há uma pergunta anterior: se a verdade não foi criada por nós, por que haveríamos de tratá-la como propriedade nossa?

Freud apoiou o cotovelo sobre a mesa.

— Então você está dizendo que o orgulho não está apenas em querer estar certo, mas em querer ser a fonte daquilo que consideramos certo?

— Exatamente. — respondeu Paulo. — O ser humano recebe muito mais do que produz. E, ainda assim, facilmente transforma aquilo que recebeu em motivo para se exaltar. Até o conhecimento que possui não nasceu simplesmente dele.

Nietzsche sorriu de lado:

— E você acredita que exista uma verdade que esteja acima de todas essas interpretações humanas?

— Não apenas acredito. É justamente esse o ponto. A verdade não depende de nós para ser verdade. Ela nos precede. E, quando falo da verdade, não estou falando de uma divindade inventada para confirmar aquilo que cada pessoa já pensa. Falo do Deus que se revela e que não cabe nas nossas preferências, no nosso ego ou nas nossas convicções. O Deus que vocês podem procurar sem ainda conhecê-lo plenamente.

Kahneman interrompeu:

— Então até nossa busca pela verdade pode ser contaminada pelos mecanismos que discutimos?

— Pode. Por isso a humildade é indispensável. Quem pensa que já possui a verdade como propriedade sua corre o risco de transformar a própria certeza em ídolo. Mas quem reconhece que a verdade não nasceu nele pode permanecer disposto a ser corrigido por aquilo que é maior do que ele.

Sócrates sorriu.

— Então talvez a pergunta “E se eu estiver errado?” ainda não seja a mais profunda.

Paulo assentiu:

— Talvez seja esta: “E se a verdade não pertencer a mim?” Porque, se a verdade é maior do que nós, estar disposto a estar errado não é uma derrota. É uma forma de deixar de ser o centro.

domingo, 13 de setembro de 2026

Podemos falar tudo com Deus?

Às vezes passamos por situações tão dolorosas que, no fundo do coração, surge uma pergunta difícil: “Deus, por que o Senhor permitiu que isso acontecesse comigo?” Ou até algo mais difícil: “Será que o Senhor não teve alguma responsabilidade nisso?”

Muitas vezes sentimos que não deveríamos falar assim com Deus. Pensamos que, se temos fé, precisamos esconder esses pensamentos, como se Deus pudesse se ofender com a nossa sinceridade.

Mas a Bíblia nos mostra algo diferente.

Quando o filho da viúva de Sarepta morreu, Elias ficou profundamente abalado. Ele havia sido hospedado por aquela mulher e havia visto Deus sustentá-la durante a fome. Então, diante da morte do menino, Elias se dirige a Deus:

“Ó Senhor, meu Deus, por que fizeste esta coisa tão terrível para esta viúva? Ela me hospedou, e agora tu mataste o filho dela!” (1 Reis 17:20, NTLH)

Elias não escolheu cuidadosamente as palavras para parecer espiritualmente correto. Ele falou a Deus aquilo que estava sentindo e aquilo que, naquele momento, estava entendendo da situação.

Isso não significa que Elias estivesse estabelecendo uma doutrina de que Deus havia cometido uma injustiça. Ele estava diante de algo que não compreendia e levou sua perplexidade, sua dor e sua indignação diretamente a Deus.

E o que Deus fez?

Não encontramos uma repreensão de Deus dizendo: “Elias, você não pode falar assim comigo.” A narrativa continua mostrando Elias orando, pedindo que o menino voltasse à vida, e Deus respondendo à sua oração.

Isso nos ensina algo importante sobre a oração: Deus não precisa que escondamos dele aquilo que existe dentro de nós.

Podemos chegar diante dele com a nossa fé, mas também com as nossas dúvidas. Podemos chegar com confiança, mas também com medo. Podemos agradecer, mas também chorar. Podemos não compreender o que Deus está fazendo e dizer isso a Ele.

Os Salmos estão cheios desse tipo de oração. “Até quando, Senhor?”, “Por que estás tão distante?”, “Por que permitiste isso?”. São perguntas feitas por pessoas que continuam falando com Deus justamente porque ainda esperam alguma coisa dele.

A sinceridade diante de Deus não é falta de fé.

Às vezes, talvez a maior expressão de fé seja justamente continuar falando com Deus quando estamos magoados com aquilo que aconteceu e não conseguimos entender por quê.

Não precisamos fingir diante daquele que conhece o nosso coração.

Podemos dizer: “Senhor, eu não estou entendendo. Estou sofrendo. Estou até pensando que o Senhor poderia ter evitado isso. Não sei se estou pensando corretamente, mas é assim que estou me sentindo.”

Depois podemos acrescentar: “Mesmo sem entender, continuo falando com o Senhor.”

Isso é muito diferente de abandonar a fé.

A oração não é o lugar onde precisamos parecer bem diante de Deus. É o lugar onde podemos finalmente ser verdadeiros diante dele.

Posso dizer a Deus até aquilo que penso sobre Deus, inclusive quando suspeito que Ele tenha errado — não porque eu tenha certeza de que Ele errou, mas porque Deus é o único diante de quem posso colocar honestamente essa dor e pedir que Ele me mostre a verdade.

Gd